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Medieval: A Fundação e Condado Portucalense



Vivia-se numa época caracterizada pela fragmentação política: os reis, por falta de força e de meios, entregavam aos companheiros de armas o governo de algumas terras.
O alargamento para sul do reino de Leão e Castela, assim como de outros reinos cristãos, determinou que famílias poderosas, submetidas ao domínio daqueles reinos, e lesados nos seus interesses, principiaram a opôr-se a este poder central.
Ao sul da Galiza existia uma família que governava um conjunto de terras na região de Portucale (nome que deriva de duas cidades Portus e Cale situadas na foz do rio Douro defronte uma da outra), sob um regime de quase completa autonomia a onde se verificava uma nítida tendência oposicionista ao poder central.
Neste contexto a Província Portucalense - região entre o Minho e o Tejo - foi doada por causa do auxílio prestado na conquista de Toledo, Santarém e Lisboa, cerca do final do Séc. XI, por volta de 1093, por Afonso VI rei de Leão e Castela, sob a forma de condado hereditário, ao Conde D.Henrique, - que reunia em suas mãos todos os poderes militares, judiciais e administrativos dos quais dispunha com a maior amplitude, - pertencente à nobreza francesa, e neto do rei de França, Roberto II.

Independência do Condado
D.Henrique, era bastante poderoso para fàcilmente se possuir da ideia de independência e rebelião, comum naquela época, e como os distritos desta província estavam demasiado afastados da acção imediata do rei, ràpidamente procura tornar o seu Condado independente libertando-se da tutela do rei de Leão e Castela.
Era grande o seu espírito de independência.
Após o seu falecimento em 1114, assumiu o governo sua esposa D.Teresa, filha bastarda de Afonso VI, que continuou a lutar àrduamente pela independência do Condado sem nenhum êxito.
D.Teresa deixara-se cativar pelo prestígio de Fernão Peres, conde de Trava e fidalgo galego, que pretendeu casar com ela, desapossando assim os direitos de Afonso Henriques, que nunca vira com simpatia os amores de sua mãe.
O jovem Afonso pôs-se à frente dum movimento revolucionário preparado por fidalgos portugueses que conduziu a uma renhida batalha junto a Guimarães.
Após a batalha de S.Mamede em 1128 frente às tropas de sua mãe, fica senhor do Governo, expulsando-a para a Galiza e aos fidalgos galegos e portugueses que a acompanhavam nessa intentona.
Conseguiu derrotar por várias vezes os leoneses de quem o Condado dependia administrativamente, e os Mouros seus vizinhos a quem tomara já algumas terras.
Muito se distinguiram nestas reconquistas as ordens religiosas e militares - Templários, Santiago, Hospitalários e Calatrava, desempenhando uma acção importantíssima no alargamento do território, sua consolidação e defesa.

Reino de Portugal
D. Afonso Henriques continua a política do pai pelo alargamento do território e autonomia do Condado.
Visando transformar este feudo numa nação independente, D.Afonso Henriques - governador do Condado Portucalense - vassalo de Afonso VII rei de Leão e Castela que nunca cumpriu a vassalagem, conseguiu que este, pelo Tratado ou conferência de Samora em 1143 lhe concedesse definitivamente a independência e o título de Rei de Portugal, que o Papa não confirmou, concedendo-lhe apenas o título de "dux Portucalorum".

Medieval: Ordem de Cristo



Já quase tudo foi escrito sobre os Templários. Desde a sua origem até a sua extinção, por ordem do Papa Clemente V na célebre sexta-feira de 13 de Outubro de 1307, não faltam narrativas científicas, pseudo-científicas e algumas assumidamente ficcionadas sobre os cavaleiros da Ordem do Templo.
Menos conhecida é a sua importância na consolidação da independência portuguesa, no reinado do nosso primeiro Rei, a par com a ordem de Cister. Em ambos os casos, D. Afonso Henriques contou com o forte apoio de Bernard de Clairvaux, mais tarde São Bernardo, cujo influência nestas duas importantes instituições na europa medieval foi decisiva. Recorde-se que no caso da ordem de Cister, derivada da ordem de Cluny, foi concedido o Mosteiro de Alcobaça. Os Cavaleiros do Templo, decisivos na conquista de Lisboa em 1147, foi-lhes oferecida a cidade de Santarém. No entanto, esta cidade era também reclamada pelo Bispo de Lisboa, pelo que, com a intervenção de Gualdim Pais, a ordem acabou por estabelecer-se em Tomar.
Os Templários foram importantes não só na conquista militar do Reino, mas também no reconhecimento papal, onde S. Bernardo foi certamente decisivo, ou não tivesse ele, tal como D. Afonso Henriques, raizes na região de Borgonha.
Com a extinção da ordem decretada pelo Papa, após pressões de Filipe "o Belo", Rei de França, os cavaleiros da Ordem foram ferozmente perseguidos. Provavelmente, o motivo da perseguição foram as elevadas dívidas que a coroa francesa teria contraído junto destes, senhores de uma grande fortuna. A sua extinção foi a solução encontrada, contando com o beneplácito do Papa, que tinha sido eleito com o apoio do monarca francês.
Em Portugal, D. Dinis adoptou uma posição original. Formalmente, extingue-se a Ordem, mas cria-se uma nova com a quase totalidade dos bens e dos cavaleiros do Templo. Esta inteligente solução garantiu a presença dos Templários em Portugal, ainda que com outro nome, e assim nasceu a Ordem de Cristo.
Já escrevi (neste mesmo blog), que considero a Ordem de Cristo a primeira multi-nacional do mundo. A missão das descobertas, embora patrocinadas pela coroa, era conduzida pela Ordem, cuja cruz nunca abandonou as velas das naus que percorreram o mundo, e que teve como mestre o Infante D. Henrique.
Recentemente, Paulo Alexandre Loução levantou uma hipótese sobre o espólio dos templários, que creio que não seja dispicienda. Não se trata nem de ouro, nem de prata ou qualquer outra riqueza material, mas sim de documentos que foram encontrados pelos Cavaleiros da Ordem nos locais onde se tinham estabelecido e que foram reunidos num acervo único. Para onde terá ído esse tesouro? Fala-se da Escócia, mas quem nos garante que não tenha vindo para Portugal, onde podiam contar com o Rei que os protegia?
Talvez a epopeia dos Descobrimentos portugueses não tenha sido "mero acaso". Quem sabe se nesse espólio não constavam as viagens de circum navegação do continente africano realizadas pelos fenícios nos séculos VII e VI a.c.? Não terá sido esse o motivo que levou o Rei Lavrador a mandar plantar um pinhal de onde saiu a madeira para as caravelas? Não terá D. Dinis deixado esse legado aos seus sucessores?

Medieval: Os Templarios em Portugal



Misteriosa Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão era uma força que gozava de uma invejável posição, com dezenas de castelos construídos na Inglaterra, França, Alemanha, Espanha e Portugal, além daqueles espalhados pelo Oriente Médio.
Exímios organizadores, disciplinados, construíram um imenso império financeiro, apoiado no patrimônio imobiliário.
Tornaram-se autênticos banqueiros, utilizando as primeiras formas de letras de câmbio e de cheques.
A Ordem passou a ser indispensável ao governo pontifício e recebia total apoio dos Papas.
Um ano após a morte do Grão-Mestre Jacques de Molay, também morre o autor do ataque insano aos Cavaleiros do Tempo...o monarca Filipe o Belo, e uma das suas maiores motivações para esse ataque nunca foi encontrado: O Tesouro do Templo.
Existe uma forte possibilidade de que na véspera da prisão em massa dos Templários, o tesouro tenha sido transportado para o monte Saint-Michel, onde 18 barcos o aguardavam. O seu destino? Certamente...Portugal, Tomar.
Em Portugal, os Templários eram o mais querido braço militar da monarquia, devido aos feitos de Gualdim Pais que além de fundador de Tomar e mestre templário, foi o grande responsável pela consolidação da Ordem do Templo em Portugal. Nasceu no ano de 1118 em Marecos, hoje Amares.
Também fundou o Castelo de Almourol, o da Idanha, o de Ceres, o de Monsanto e o de Pombal. Deu foral a Pombal em 1174.
D. Afonso Henriques sagrou-o cavaleiro na lendária batalha de Ourique, contra os Mouros. Partiu depois para a Palestina, ali ingressando no Templo. Durante 5 anos, notabilizou-se nos confrontos contra os Sultões da Síria e do Egito. Regressou à pátria, foi comendador da Ordem em Braga e em Sintra, até que tornou-se quarto Grão-Mestre da Ordem no ano de 1157 em Portugal.
Recuperou o Castelo de Almourol, e foi sob o seu comando que os Cavaleiros Templários repeliram, em 1128, no seu recém-construído Castelo de Tomar, o poderoso exército de Yacub (califa Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur), o rei marroquino que ameaçava o reino. Certamente os monarcas portugueses não esqueceriam este serviço!
O Rei D. Diniz engendrou uma fórmula inteligente para proteger a Ordem do Templo sem desobedecer à vontade papal.
D. Diniz reiterou que os Templários não haviam cometido crime nenhum em Portugal, o Papa por sua vez reclamou os seus bens e o Rei sutilmente propôs uma troca: os bens por uma nova ordem, a Ordem de Cristo e o Papa é claro, aceitou sem pestanejar. Então o Rei transferiu todo o patrimônio dos cruzados para a Ordem de Cristo, que não deixou de ser uma antiga conhecida, composta pelos próprios templários.
Assim, D. Diniz garantiu a permanência da Ordem em terras portuguesas e Portugal virou refúgio para perseguidos em toda a Europa. Chegavam fugitivos de vários países e o Castelo de Tomar virou a caixa-forte dos segredos que a inquisição não conseguiu arrancar. A nova "Ordem de Cristo" foi reconhecida dois anos depois...em 1319 pelo novo Papa João XXII.
Começava para os cavaleiros uma nova era, uma nova missão...A missão do Templo retomava caminho nas caravelas portuguesas...
A nova Ordem de Cristo tornou-se o principal agente dos descobrimentos lusos, sob a administração de D. Henrique. A igreja Santa Maria do Olival seria o modelo de todos os templos construídos nos novos territórios, onde se reunia a cúpula da Ordem e onde também foram sepultados 28 mestres, inclusive Gualdim Pais. Os túmulos mais antigos foram violados, e os restos mortais, incluindo os de Gualdim, desapareceram.
Ainda assim, perdura a carga simbólica templária: sobre a porta de entrada há uma enorme estrela de cinco pontas, a Estrela de Salomão, sobre uma rosa, símbolo do renascimento. Esta simbologia repete-se no "Convento de Cristo", cenário escolhido para representar a epopéia dos Descobrimentos.
O Convento de Cristo (quartel-general dos Templários) é um dos monumentos mais investigado por historiadores, arqueólogos, místicos e até mesmo simples curiosos. Até o momento, ninguém conseguiu encontrar a chave para o tesouro ou a misteriosa missão da Ordem do Templo. Mas todos julgam encontrar pistas.
A riqueza do "Convento de Cristo" prende-se, sobretudo, com a grandiosidade: tem nove claustros e uma variedade de estilos arquitetônicos; o românico do Templários; o gótico; o manuelino dos Descobrimentos; o neoclássico; o maneirismo e o barroco devido ao domínio filipino.
Patrimônio Mundial desde Dezembro de 1983, o Convento forma, com o Castelo Templário de Tomar (Thomar) um dos mais importantes conjuntos da arquitetura de Portugal.
O núcleo irradiador de todo o discurso arquitetônico é a charola em prisma octagonal, com oito andares. Originalmente igreja Templária do século XII, foi transformada em capela-mor da igreja manuelina.
A Charola era o coração do Mosteiro e local de oração para os Templários. Foi por muitas vezes chamada Rotunda, dada a sua forma redonda com origem na Rotunda do Santo Sepulcro, em Jerusalém.
Com o formato de um tambor de 16 faces, apresenta uma exuberante decoração interior, composta essencialmente por esculturas e frescos, que representam cenas da Bíblia.
O Mestre da Ordem do Templo em Portugal, Gualdim Pais, decidiu-se pela construção de um novo castelo, em local mais adequado, e que viria a tornar-se a sede da Ordem no país:
O Castelo de Tomar (Thomar) apresenta elementos de arquitetura militar nos estilos românico, gótico e renascentista.
Alguns autores apontam a presença de vestígios indicativos de uma estrutura militar anterior, que poderia remontar à época romana e que teria perdurado até à época islâmica, referindo a presença, no aparelho dos muros, de algumas placas decorativas, de cronologia visigótica ou moçárabe, provavelmente oriundas do sítio de Santa Maria dos Olivais, à margem esquerda do rio Nabão.
Não se sabe com certeza qual a razão que levou à opção por Tomar. Alguns estudiosos afirmam que o novo sítio, em um outeiro à margem direita do rio Tomar (atual Nabão), dominando uma planície, era estratégicamente mais vantajoso.
Outros argumentam que o sítio foi escolhido considerando a sua posição na linha que, em relação ao Meridiano de Paris, forma um ângulo de 34°, comum nos projetos arquitetônicos da Ordem, correspondente à diagonal da relação de 2/3 observada na constelação de Gêmeos, um dos símbolos Templários.
De qualquer modo, a construção do Castelo de Tomar iniciou-se em 1 de Março de 1160, conforme inscrição epigráfica em seus muros.
Na mesma época, iniciou-se a construção da Charola, posteriormente adaptada a Capela-mor, uma das edificações templárias mais importantes no Ocidente.
A vila de Tomar foi elevada à categoria de cidade por alvará de D. Maria II (1826-1828 e 1834-1853), em 13 de Fevereiro de 1844.
O castelo encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto publicado em 23 de Junho de 1918, e como Património da Humanidade, pela pela Assembléia Geral da UNESCO de 27 a 30 de Junho de 1983.
O Castelo de Almourol
Almourol foi conquistado em 1129 por D. Afonso Henriques (1112-1185). O soberano entregou o castelo aos Templários, então encarregados do povoamento do território entre o rio Mondego e o Tejo, e da defesa da então capital de Portugal, Coimbra.
O castelo foi reedificado, tendo adquirido, em linhas gerais, as suas atuais feições, características da arquitetura templária: espaços de planta quadrangular, muralhas elevadas, reforçadas por torres adossadas, dominadas por uma torre de menagem. Uma placa epigráfica, colocada sobre o portão principal, dá conta que as suas obras foram concluídas em 1171, dois anos após a conclusão do Castelo de Tomar, edificado por determinação de Gualdim Pais. As mesmas características arquitetônicas estão presentes também no Castelo de Idanha, no de Monsanto, no de Pombal, no de Tomar e no de Zêzere, seus contemporâneos.
Sobre a porta principal do castelo, uma inscrição epigráfica datada da era de 1209 (1171), menciona, além da naturalidade bracarense de Gualdim Pais e da sua ação militar contra os muçulmanos no Egito e na Síria, a sua ascensão à chefia da Ordem do Templo em Portugal e subseqüente construção dos castelos de Pombal, Tomar, Zêzere, Cardiga e Almourol (...factus domus Templi Portugalis procurator, hoc construxit castrum Palumbare, Tomar, Ozezar, Cardig, et hoc ad Almourol), evidenciando que, naquele ano, o castelo de Almourol se achava, como os demais indicados, já construído.
Entretanto, uma segunda inscrição, sobre a porta interior, informa ter sido na era de 1209 que Gualdim Pais edificou o Castelo de Almourol.
Uma terceira inscrição, sobre a porta da sacristia da igreja do Convento de Tomar, igualmente datada da era de 1209, semelhante à primeira, exceto na enumeração dos castelos, que compreende também os de Idanha e Monsanto, o que evidencia ser esta terceira posterior à primeira, de vez que estes dois últimos castelos são de edificação posterior a 1171.
Os Templários auxiliaram os reis de Portugal na conquista do território aos muçulmanos no decorrer do século XII e, graças à segurança militar que proporcionaram, foi possível o povoamento de toda essa região.
Inicialmente, foram os responsáveis pelo território situado entre Coimbra e Leiria, mas, em 1159, D. Afonso Hemriques doou-lhes o Castelo de Ceras, com toda a sua região, estabelecendo aí a sede da Ordem, antes de Gualdim Pais dar início à construção do Castelo de Tomar (Thomar). Mais tarde, são fundados os Castelos de Almourol, Zêzere e Pombal, com vista à defesa de uma fronteira sul, último reduto contra os Mouros, cujo limite era assinalado pelo rio Tejo.
Pelos seus excelentes serviços militares e de povoamento, receberam amplas doações régias que se estendiam entre Idanha-a-Velha e o Castelo de Belver.

Medieval: Ordem do Templo em Portugal



Dois meses apenas após a comparência do fundador da Ordem do Templo perante o Concílio de Troyes - cujo papel acabaria por ser decisivo para o reconhecimento e desenvolvimento da Ordem -, um dos seus companheiros recebeu uma primeira doação importante em Portugal. Em 19 de Março de 1128, a Rainha Teresa, viúva do Conde Henrique e tutora do seu filho Afonso Henriques, concede ao Templo o Castelo de Soure e respectivas dependências. Rapidamente, outras doações vêm juntar-se a esta. Não são necessariamente feitas por senhores poderosos, mas são em grande número. Assim, entre 1128 e 1130, 19 bens fundiários, incluindo vários domínios rurais, são atribuídos integral ou parcialmente ao Templo. Em Junho de 1145, D. Sancha, filha da Rainha Teresa, e o seu marido doam ao Templo o Castelo de Longroiva, na Estremadura Portuguesa, bem como as suas inúmeras dependências na região da metrópole de Braga. Nesta mesma cidade, o arcebispo João concede à Ordem, nesse mesmo ano, uma casa, um hospital para os peregrinos e metade dos rendimentos eclesiásticos da cidade, incluindo os dízimos. Paralelamente, os templários praticam uma política activa de compras que se conjuga com a piedade dos fiéis, cujos legados testamentários são regulares e importantes.

A partir de 1143, presença permanente dos Templários em Portugal
Os primeiros sinais tangíveis de uma presença permanente da Ordem do Templo no reino surgem a partir de 1143, ano em que um templário francês, Hugues de Martone, foi qualificado como procurador do Templo em Portugal. No ano seguinte, a pequena guarnição templária do Castelo de Soure é destruída durante um confronto com as tropas mouras de Santarém. Em 1147, os Templários conseguem a sua desforra, participando na tomada desta cidade e, em troca dos seus esforços, a Ordem obtém do Rei a autorização para receber todos os direitos cobrados em Santarém a título religioso.

No final dos anos 1150, sob o magistério de Gualdim Pais, o quarto Grão-Mestre português da Ordem do Templo no reino, inicia-se a extraordinária expansão da Ordem. Durante esta década, o Templo recebe do Rei um importante domínio agrícola na confluência do Nabão com o Zêzere, onde inicia a construção do Castelo de Tomar, que se tornará a sede do Templo em Portugal, e mais tarde do seu sucessor, a Ordem de Cristo. Uma década mais tarde, no âmbito de uma vasta doação de terras a sul do Tejo, mas que nunca passará de letra-morta, o Rei insiste em que os recursos da Ordem sejam utilizados apenas no reino e, nomeadamente, para prosseguir com a reconquista.

Medieval: Cátaros



O mesmo século XII que assistiu ao zelo religioso expressado nas cruzadas, foi também, paradoxalmente, uma época de crescente desilusão com a Igreja católica e com as maneiras terrenas do clero. Desde suas origens humildes como uma entre as muitas seitas do Império romano, a Igreja tornara-se uma instituição de riqueza e privilégio. Com frequência, padres e bispos viviam no luxo, ao mesmo tempo que se entregavam a práticas espúrias tais como perdoar pecados em troca de dinheiro. Em grande parte, foi como reação contra o fausto e o esplendor indecoroso da Igreja que o catarismo se enraizou, primeiramente no norte da Itália, e depois por todo o sul da França.

Com medo da repressão da Igreja, os primeiros cátaros mantiveram sua fé em segredo. Em pouco tempo, porém, a seita atraiu tantos seguidores, que pôde passar a agir abertamente sob a proteção de senhores feudais poderosos, capazes de desafiar o papa. No sul da França, o catarismo e outro movimento vagamente semelhante, conhecido como waldensianismo, tornaram-se, na prática, as religiões oficiais.

As teologias cátara e católica estavam em nítido conflito. Do ponto de vista católico, a salvação vinha através do sofrimento físico de Jesus, um ser espiritual que havia ingressado na carne de modo a redimir a humanidade morrendo na cruz. Segundo os cátaros, a redenção da humanidade não vinha da morte de Cristo, e sim do exemplo de vida que levou à terra. Os cátaros negavam também que o mundo físico imperfeito pudesse ter sido criado por um Deus perfeito; tal como os gnósticos e maniqueístas antes deles, os cátaros rejeitavam a visão bíblica da criação e, com efeito, todo o Antigo Testamento. Um cátaro alcançava a salvação mediante o conhecimento da verdadeira origem e destino da humanidade e através da renúncia ao mundo satânico da carne, de uma vida de abstinência e pobreza.

Ao contrário dos católicos, os cátaros acreditam na reencarnação; se uma pessoa fracassasse em uma vida, alegavam, teria a oportunidade de ter sucesso em outra. Rejeitavam o batismo, a cruz como símbolo, a confissão individual e todos os ornamentos religiosos. Os serviços eclesiásticos eram simples e podiam ser realizados em qualquer parte. Consistiam de uma leitura do evangelho, um sermão breve, uma bênção e a Oração do Senhor. A abordagem “de volta ao básico” da liturgia feita pelos cátaros antecipou a simplicidade de algumas das seitas protestantes de épocas posteriores.

O catarismo tinha duas classes, ou graus. Os leigos eram conhecidos como crentes. Não se exigia que seguissem as rígidas regras de abstinência reservadas para os perfecti, ou bonhommes (homens bons) eleitos, que formavam a hierarquia da igreja cátara. Qualquer pessoa que desejasse juntar-se aos perfecti, homem ou mulher, teria que enfrentar um período de prova nunca inferior a dois anos. Durante esse tempo, a pessoa renunciava a todos os bens terrenos, vivia comunalmente com outros perfecti e se abstinha de vinho e carne. Para evitar as tentações da carne, os iniciandos não podiam ter qualquer contato com o sexo oposto e faziam um voto de jamais dormir nus. No final do período de prova, o noviço recebia o consolamentum, um rito que combinava características de batismo, confirmação e ordenação, conduzido em público diante de uma grande congregação. Nesse rito, o iniciando respondia a uma série de perguntas feitas por um veterano da igreja, e depois prometia viver uma vida de pobreza, abstinência e obediência a Deus e aos evangelhos.

A Igreja Católica fez o que pôde para combater a expansão da heresia cátara. Em primeiro lugar, tentou atrair os cátaros de volta ao rebanho despachando missões de catequese formadas por monges cistercianos, lideradas pelo chefe da ordem, o futuro São Bernardo de Clairvaux. Os monges fizeram poucas conversões, e a recalcitrância dos hereges desanimou Bernardo, cujos esforços para alcançá-los foram respondidos por vaias e apupos pelas ruas de Toulouse.

As regiões cátaras do sul da França estavam sob o controle político do conde Raymond VI de Toulouse, também seguidor da fé cátara. O diálogo entre as autoridades cátaras e as católicas interrompeu-se quando um escudeiro do conde assassinou um enviado especial do papa Inocêncio III a Toulouse. O assassinato deixou o papa tão enraivecido que ele, literalmente, não conseguiu falar durante dois dias. Então, ele declarou que os cátaros eram “piores que o próprio sarraceno” (termo cristão para os mulçumanos) e convocou uma cruzada para varrer a heresia de uma vez por todas. Seu apelo foi respondido com presteza por muitos cavaleiros franceses, levados a agir por diversas razões. Tratava-se da primeira cruzada dirigida contra o inimigo na Europa, de modo que não exigia nem o tempo, nem as despesas necessárias para uma cruzada na Terra Santa. Também, além da salvação prometida a todos os que se unissem à cruzada por quarenta dias pelo menos, os recrutas podiam contar com a posse dos despojos materiais do território conquistado.

A cruzada (Albigense) foi lançada em 1209, com vinte mil cavaleiros montados à frente de um enorme exército. Em sua primeira grande vitória, os cruzados tomaram a cidade de Beziers e massacraram quase todos os habitantes, entre eles muitos que se consideravam católicos leais. Quando perguntaram ao legado papal como distinguir entre hereges e católicos, dizem que ele respondeu: “Matem-nos a todos. Deus se encarregará dos seus”.

Contudo, a fé cátara era forte e as legiões papais enfrentaram um a longa luta. Quase quarenta anos se passaram antes que os cruzados esmagassem a última resistência armada e células secretas de fiéis cátaros sobreviveram por mais meio século. Uma medida do peso do catarismo sobre seus seguidores pode ser vista na disposição destes para o martírio. Milhares de perfecti, diante da opção entre a morte e a conversão ao catolicismo, negaram-se a renunciar a sua fé. Morreram, às vezes de fome, acorrentados às paredes de calabouços, mas em geral queimados publicamente em grandes piras. Diante da perseguição e da tortura, alguns optaram pelo rito cátaro da Endura, uma forma santificada de suicídio pelo jejum.

Assim, por mais um quarto de século se estenderia esta guerra e em 1243 o arremedo de resistência da região havia cessado quase que completamente. Dentre os pontos que ainda resistiam, o mais importante foi Montségur. Sitiada durante dez meses e resistindo bravamente, capitulou em março de 1244.
Mesmo parecendo exterminado, o catarismo não morreu. Grupos isolados continuaram a exercê-lo influenciando vários outros grupos que depois chegaram ao Languedoc: valdenses, hussitas, adamitas, anabatistas e os camitas, que depois se refugiaram em Londres no início do século XVIII.
Os intelectuais modernos têm por hábito considerar os cátaros como sendo sábios, místicos ou "iniciados" detentores de segredos cósmicos. Isto fortalece o poder de uma lenda que diz respeito a um TESOURO CÁTARO. Entretanto, esta lenda parece ter foros de realidade.
Naquela época corria a notícia de que os cátaros possuíam um fabuloso tesouro místico, muito mais importante do que a riqueza material. No cerco de Montségur, isto é fato, se tem a notícia de que dois fugitivos, dois perfecti, desceram o monte na calada da noite, arriscando as suas vidas para salvarem um precioso tesouro. Foram bem sucedidos!
Presumia-se que este fabuloso tesouro estava escondido em Montségur e depois de salvo nunca mais se ouviu comentários a seu respeito. O fato é que pelo menos vinte, dos que vigiavam Montségur e que pertenciam à milícia invasora, tornaram-se perfecti, devido à impressão neles provocada por algo que presenciaram num festival organizado pelos cátaros, numa trégua que lhes foi concedida devido ao seu fornecimento de reféns, para que pudessem comemorar um certo dia 14 de março.

A história e a religião dos cátaros estão sendo cada vez mais conhecidas. É até possível falar de uma renovação, pois suas idéias estão refazendo seu caminho. Com relação a isso, não há dúvida de que uma releitura do Novo Testamento, à luz da exegese cátara, pode trazer uma nova e bela iluminação à compreensão do cristianismo. No alvorecer do terceiro milênio, os cristãos talvez se interessem em buscar nos cátaros algo da essência de sua religião de origem.
- Fonte: http://www.terraespiritual.org/

Medieval: Os Cátaros



O catarismo, do grego katharos, que significa puro, foi uma seita cristã da Idade Média surgida no Limousin (França) ao final do século XI, a qual praticava um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, manifestado num extremo ascetismo. Concebia a dualidade entre o espírito e a matéria, assim como, respectivamente, o bem e o mal. Os cátaros foram condenados pelo 4º Concílio Lateranense em 1215 pelo Papa Inocêncio III, e foram aniquilados por uma cruzada e pelas acções da Inquisição, tornada oficial em 1233.

Os cátaros, também chamados de albigenses, rejeitavam os sacramentos católicos. Aqueles que recebiam o batismo de espírito, consolamentum, eram considerados os perfeitos e levavam uma vida de castidade e austeridade e podiam ser tanto homens quanto mulheres. Os crentes apenas eram os homens bons e tinham obrigações menores; recebiam o consolamentum na hora da morte.

Apesar desta hierarquia, os cátaros não restringiam a experiência transcendental, e/ou divina (no caso, também gnóstica) aos mais graduados, mas a qualquer um que assim desejasse e experimentasse estados alterados de consciência.

Essa concepção sem hierarquia da espiritualidade foi considerada pela igreja católica uma ameaça para a fé e a unidade cristã, já que atraiu numerosos adeptos. Assim sendo, o catarismo foi considerado herético e contra ele foi estabelecida a Cruzada albigense (1209-1229). A cruzada teve parte de interesses políticos, já que as localidades onde se praticavam o catarismo (nota: esta seita era conhecida por sua tolerância religiosa ao passo que conviviam, nos mesmos reinados, judeus, pagãos, e até mesmo católicos) encontravam-se ligadas ao reino da França, porém independentes do mesmo.

No início do século XII, a Igreja católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros ("Kataroi", puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de "Albi", na qual vivia um certo número de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sudoeste da França (da língua occitâna da região - "Língua do Oc"; Oc= "Sim", em oposição à "Langue d'Oui", do norte da França). Também se designava frequentemente esta região por "Occitânia", que advém das mesmas raízes linguísticas.

Antes de tudo, é conveniente ressaltar que o catarismo não pertence exclusivamente ao Languedoc, nem o Languedoc deve ser visto exclusivamente sobre o prisma do catarismo. Aderentes à doutrina cátara recebem diferentes nomes no país em que se inserem: Na Itália, eram conhecidos como "patarinos", na Alemanha como "ketzers"; na Bulgária, como "bogomils". Existiram cátaros na França, na Catalunha, na Itália, na Alemanha e, ao que parece, na Inglaterra.

Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal. Não concebiam a idéia de inferno, pois no fim o deus do bem triunfaria sobre o deus do mal todos seriam salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval, nem matavam qualquer espécie animal.

Os cátaros organizaram uma igreja e seus membros estavam divididos em crentes, perfeitos e bispos. As pessoas se tornavam perfeitos (homens bons) pelo "ritual do consolament" (esta cerimônia consistia na oração do Pai Nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição. Tocava-se a cabeça do iniciante com o Evangelho de são João, e o ritual terminava com o beijo da paz). Os crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, frequentavam a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos. Dessa forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.

Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.

Devido à propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combate-la, sendo que no início tentava os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando trágicas medidas, pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo. Vemos aqui um motivo político para investidas contra as comunidades cátaras e sua doutrina. Poderia haver outros motivos para tais investidas?

A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia à província de Narbona, somente a região de Albi ligada à província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux. O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc pode ser explicado pela situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.

O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo).

Os cátaros a exemplo dos primeiros cristãos levavam vida ascética de alta espiritualidade, vivenciando na prática um cristianismo puro, numa total alta-renúncia a tudo o que era deste mundo, eram conhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo, a serviço do mundo e da humanidade, um verdadeiro exemplo de amor ao próximo.

Os cátaros galgavam o caminho da transformação ou da transfiguração.
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