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Esoterico: A Fé que não salva



Desde os primeiros séculos do cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido para o latim, principiou o erro de associação entre "crer" com "fé". A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo é pisteuein.
Infelizmente, o substantivo latino fides, correspondente a pistis, não tem verbo e, assim, os tradutores latinos viram-se obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o grego pisteuein: credere, que em português deu "crer".
Nenhuma das cinco línguas neo-latinas português, espanhol, italiano, francês, romeno - possui verbo derivado do substantivo fides, fé; todas estas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere.
Ora, a palavra pistis ou fides significa, originalmente, harmonia, sintonia, consonância. Portanto, ter fé é estabelecer ou ter sintonia e harmonia entre o espírito humano e o espírito divino.

Nos tempos modernos, é fácil estabelecer o seguinte paralelo ilustrativo: um receptor de rádio só recebe a onda eletronica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado perfeitamente com a frequência da emissora; se a emissora, por exemplo, emite uma onda de frequência 100, o meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a frequência 100; só neste caso, o meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia ou está em consonância com a emissora.

Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe, e apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus.
Crer é um acto de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência. A conhecida frase "quem crer será salvo, quem não crer será condenado", é absurda e blasfema no sentido em que ela é geralmente usada pelos teólogos. Mas, se lhe dermos o sentido verdadeiro, ela está certa, porque a salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus.
A substituição de "ter fé" por "crer" há quase dois mil anos desviou a teologia e deturpou profundamente a mensagem do Cristo.

Mistico: A Gnose e a mulher


Quando examinamos o efeito prático que a doutrina da ressurreição corporal teve no movimento cristão, constatamos que, paradoxalmente, ela serve também a uma função política essencial, legitimando a autoridade de certos homens que pretendem exercer liderança exclusiva sobre as igrejas, enquanto sucessores do apóstolo Pedro.
E foi assim, acrescenta Marcos, que "a Verdade nua" lhe surgiu na forma de uma mulher, revelando-lhe os seus segredos. Marcos espera, por sua vez, que todos quantos ele iniciar na Gnosis vivam também experiências semelhantes. No ritual de iniciação, depois de invocar o Espírito, ele ordena ao candidato que fale profeticamente, de forma a demonstrar que a pessoa recebeu contato direto com o divino.

(...) o Evangelho de Maria apresenta Maria Madalena (nunca reconhecida como apóstolo pelos degenerados) como aquela que era favorecida com visões e revelações ultrapassando largamente as de Pedro.

Esta tradição secreta revela que o que a maioria dos cristãos adora ingenuamente como criador, Deus e Pai é, na realidade, apenas a imagem do verdadeiro Deus.
Entre os grupos gnósticos, tais como os valentinianos, as mulheres eram consideradas iguais aos homens; algumas eram reverenciadas como profetas; outras funcionavam como professoras, evangelistas errantes, curandeiros, padres, talvez mesmo bispos.
Contrariamente às fontes ortodoxas, as quais interpretam a morte de Cristo como um sacrifício redimindo a Humanidade da culpa e do pecado, os evangelhos gnósticos consideram a crucificação como a ocasião para a descoberta do ser divino interior, dentro de cada um de nós.

Os gnósticos estão convictos de que a "igreja visível" - a rede efectiva de comunidades católicas - se transviara. A verdadeira igreja, por contraste, era "invisível": apenas os seus membros "percepcionavam" quem lhe pertencia ou não. Através da sua idéia de uma igreja invisível, a intenção dos dissidentes era oporem-se às pretensões dos que diziam representar a igreja universal.
O movimento gnóstico partilhava certas afinidades com métodos contemporâneos de exploração do ser através de técnicas psicoterapêuticas. Tanto o gnosticismo como a psicoterapia superior valorizam acima de tudo o conhecimento - o autoconhecimento representado pela revelação intuitiva -, e ambos concordam que, na falta dele, a pessoa experimenta um estado de ser que é motivado por impulsos que não entende, os chamados Anelos do Ser...
O gnóstico era incapaz de aceitar em verdade o que os outros diziam, excepto enquanto medidas provisórias, até ele descobrir o seu próprio caminho, "pois", como diz o mestre gnóstico Heráclito, "as pessoas são inicialmente levadas a acreditar no Salvator através de outros", mas quando amadurecem "não dependem mais de testemunhos meramente humanos", descobrindo sim a relação imediata que desfrutam com "a própria verdade interior".
- Fonte: http://www.gnosisonline.org/